A Cidade de Goiás, berço político, cultural e administrativo do Estado, decidiu transformar uma reivindicação histórica em pauta concreta de governo.
Quase 90 anos após perder o título de capital para Goiânia, o município voltou ao centro do debate político goiano com a articulação de um projeto de lei que busca garantir uma compensação financeira pelas perdas provocadas pela transferência da sede administrativa estadual em 1937.
A mobilização ganhou força nesta semana após reuniões entre o prefeito Aderson Gouvea (PT), o presidente da Assembleia Legislativa, Bruno Peixoto (UB), e os deputados estaduais Karlos Cabral (PSB), Antônio Gomide (PT) e Mauro Rubem (PT).
O movimento também recebeu sinal verde do governador Daniel Vilela (MDB), que propôs a criação de um Grupo de Trabalho (GT) para elaborar o projeto que poderá resultar em uma das mais simbólicas reparações históricas da política goiana.
Mais do que uma discussão sobre recursos financeiros, a iniciativa resgata um debate que atravessa gerações e questiona uma promessa feita quando Goiás decidiu trocar sua antiga capital por uma cidade planejada para representar a modernidade do estado.
Uma promessa que atravessou décadas
Quando Goiânia foi construída para substituir a então Vila Boa de Goiás como capital estadual, a mudança foi apresentada como símbolo de progresso. No entanto, junto com os órgãos públicos, migraram também investimentos, empregos, instituições de ensino e grande parte da atividade econômica que movimentava a antiga sede do poder.
Segundo lideranças que defendem a proposta, a própria Constituição Estadual da época previa mecanismos de compensação ao município, mas a medida jamais saiu do papel. Durante encontro na Assembleia, o prefeito Aderson Gouvea lembrou que a cidade sofreu um esvaziamento estrutural após a transferência. “Quando houve a mudança da capital, as universidades, os órgãos públicos e o Liceu deixaram a cidade.
Goiás ficou em uma situação muito difícil. O município sobreviveu graças ao amor que as pessoas sentem pela cidade de Goiás”, afirmou. A avaliação é compartilhada por parlamentares que enxergam na proposta uma oportunidade de corrigir uma pendência histórica.
O peso de guardar a memória de Goiás
Enquanto Goiânia cresceu e se consolidou como centro político e econômico, a Cidade de Goiás assumiu outro papel: o de guardiã da memória goiana. Patrimônio Cultural da Humanidade reconhecido pela UNESCO, o município preserva igrejas, casarões, tradições e parte significativa da identidade histórica do estado. Mas manter esse patrimônio exige investimentos permanentes.
Por isso, o discurso dos defensores da proposta vai além da compensação financeira. Eles argumentam que a antiga capital presta um serviço coletivo ao preservar a história de Goiás. “A cidade de Goiás tem a missão de guardar a memória de todo o Estado. Nós não podemos esperar mais 100 anos ou 200 anos. Temos que fazer agora o que a sociedade precisa”, afirmou Aderson Gouvea.
A proposta ganha ainda mais relevância em um momento simbólico: as celebrações dos 300 anos de fundação do município. Frente parlamentar entra em campo
O principal articulador da proposta na Assembleia é o deputado Karlos Cabral, que apresentou requerimento para a criação da Frente Parlamentar de Compensação Financeira da Cidade de Goiás. Segundo ele, a discussão não é nova.
Um projeto semelhante chegou a tramitar na Assembleia ainda na década de 1930, mas acabou não avançando. “Em 1936 já tramitou uma matéria nesta Casa prevendo essa possibilidade de reparação financeira. Ela não avançou. Agora queremos retomar esse debate e fazer essa reparação histórica para a nossa eterna capital”, destacou.
A frente parlamentar deverá reunir deputados de diferentes partidos em torno da proposta e ampliar as discussões com a sociedade, especialistas e representantes do governo estadual. Daniel Vilela entra na discussão
A pauta também chegou ao Palácio das Esmeraldas.
Em reunião realizada nesta semana, o governador Daniel Vilela concordou com a criação de um Grupo de Trabalho para construir uma proposta técnica e juridicamente viável. A intenção é reunir representantes do Executivo estadual, da Assembleia Legislativa e da Prefeitura da Cidade de Goiás para definir quais mecanismos poderão ser utilizados para a compensação.
A iniciativa sinaliza que o debate deixou de ser apenas uma reivindicação local para ganhar dimensão institucional. Um exemplo que já aconteceu em outros estados
Para os defensores do projeto, Goiás não estaria criando uma situação inédita.
O deputado Antônio Gomide lembra que outros estados brasileiros já adotaram medidas semelhantes quando transferiram suas capitais.
“Tanto Guanabara quanto Minas Gerais compensaram suas antigas capitais diante das mudanças. É algo justo e que vem respaldado por dados”, afirmou.
O argumento reforça a tese de que a compensação não seria um privilégio, mas uma política de reconhecimento pelos impactos provocados pela mudança administrativa.
Entre a dívida do passado e o futuro da cidade
Embora ainda não exista definição sobre valores ou formato da compensação, a expectativa é que eventuais recursos possam ser destinados a áreas estratégicas como preservação do patrimônio histórico, turismo, infraestrutura urbana e desenvolvimento econômico.
Durante o debate, parlamentares também defenderam investimentos em obras estruturantes para toda a região, como melhorias em rodovias e ampliação da infraestrutura regional. Para muitos dos envolvidos, entretanto, o principal valor da proposta é simbólico.
A discussão recoloca a Cidade de Goiás no centro da história que ajudou a construir e reacende uma pergunta que atravessa gerações: o Estado já compensou adequadamente a cidade que um dia foi sua capital?
Com a criação da frente parlamentar, o apoio do governo estadual e as comemorações dos 300 anos se aproximando, a antiga Vila Boa tenta transformar uma reivindicação quase centenária em realidade, não apenas como uma questão financeira, mas como um gesto de reconhecimento à cidade que deu origem a Goiás.
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Cidade de Goiás cobra dívida de quase um século e articula compensação pela perda da capital
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